From the publisher
Ele fixava o copo antevendo tonto o prazer, pendurado sobre o abismo da escolha. Olhava dentro de si, mas o copo ali, gritando mais alto, espumava pra ele. Tentou segurar-se na frouxidão do só por hoje. E a dança sexy das bolhas? E a vertigem de pecar por estar vivo? Quem prova filé mignon nunca mais quer colchão duro, nêgo! Decidiu. Só por mais um dia, continuaria onde estava. E a leveza prometida veio no champanhe dos miseráveis. Não tenho culpa. Não tenho culpa. Não tenho culpa, orava em pensamento. Ela não tinha pressa, o aguardaria na reunião semanal como sempre. E em todos os lugares, e atrás de todas as portas, e de todos os pilares, à espreita, pronta, bem penteada, as mechas negras presas sob o arquinho. Casaco marrom, saia grená e o sapatinho bege. Como ele detestava aqueles sapatos horrorosos. Coisa de gente sem senso estético, gente medíocre. E a cara branca marcada pela acne? E o café retinto, pelando, que sempre queimava a língua? Aqueles olhinhos pretos apertados, carregados de ressentimento e compaixão alguma. Mas remorso e compaixão não são quase um duplo? Um não começa onde o outro acaba? E a culpa não é gregária? Não deixa de fazer sentido sem uma colega a tiracolo? Não a sua. A sua culpa era única. Só sua. Aquilo era um caso de amor doentio, só podia ser. Recuperou a identidade num gole só. De um só fôlego, calma, auto-estima, alegria. Sim, era forte. Tinha coragem de apodrecer sozinho, sentar na sarjeta e chorar sem esconder a cara. Nunca precisou de ninguém, disso tinha orgulho. Amassou o protocolo e jogou o cartão no lixo, era de novo ele mesmo. Recuperava a subjetividade, não pisaria mais lá. Preferia o necrotério àquele bando de mortos-vivos. Ele gostava mesmo era das loiras. Bem geladas.
