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72 dias de revolução, utopia e sangue da Comuna de Paris

72 dias de revolução, utopia e sangue da Comuna de Paris

A História repete-se · Margarida de Magalhães Ramalho e Lourenço Pereira Coutinho

February 14, 202444m 57s

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Neste episódio, Henrique Monteiro e Lourenço Pereira Coutinho conversam sobre a Comuna de Paris de 1871, proclamada depois da guerra franco prussiana de 1870 e da consequente queda do imperador Napoleão III. Durante 72 dias intensos de cerco e luta de barricadas, os lideres da Comuna decretaram medidas tão emblemáticas quanto o direito de voto das mulheres, o ensino e justiça gratuitos. No entanto, a Comuna de Paris não resistiu às contradições dos seus lideres - jacobinos, socialistas e anarquistas - nem ao cerco governamental, e acabou na semana sangrenta de maio de 1871, mas a sua experiência de democracia direta inspirou acontecimentos cruciais do século XX, como a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia (1917).

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Neste episódioHenrique Monteiro e Lourenço Pereira Coutinho conversam sobre a Comuna de Paris de 1871proclamada depois da guerra franco prussiana de 1870 e da consequente queda do imperador Napoleão III. Durante 72 dias intensos de cerco e luta de barricadasos lideres da Comuna decretaram medidas tão emblemáticas quanto o direito de voto das mulhereso ensino e justiça gratuitos. No entantoa Comuna de Paris não resistiu às contradições dos seus lideres - jacobinossocialistas e anarquistas - nem ao cerco governamentale acabou na semana sangrenta de maio de 1871mas a sua experiência de democracia direta inspirou acontecimentos cruciais do século XXcomo a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia (1917).Menu principal Wikipédia Pesquisar na Wikipédia Pesquisar Criar uma conta Entrar Ferramentas pessoais Fotografe a sua cultura localajude a Wikipédia e ganhe prémios!Esconder [ocultar] Conteúdo ocultar Início Antecedentes Alternar a subsecção Antecedentes Guerra Franco-Prussiana O Governo da Comuna de Paris Participação das mulheres O fim da Comuna Consequênciaslegado e memória Referências Bibliografia Ligações externas Comuna de Paris Artigo Discussão Ler Editar Ver histórico Ferramentas Origem: Wikipédiaa enciclopédia livre. Esta página cita fontesmas não cobrem todo o conteúdo Esta página cita fontesmas que não cobrem todo o conteúdo. Ajude a inserir referências. Conteúdo não verificável pode ser removido.—Encontre fontes: ABW • CAPES • Google (N • L • A) (Fevereiro de 2010) Comuna de Paris Consequências do Cerco de Paris durante a Guerra Franco-Prussiana Uma barricada na Rua Voltaireapós sua captura pelo exército regular durante a Semana Sangrenta Data 18 de março – 28 de maio de 1871 Local ParisFrança Desfecho Revolta suprimida Beligerantes França República Francesa Forças Armadas da França Communards Guarda Nacional Comandantes França Patrice de Mac-Mahon Louis Charles Delescluze † Jarosław Dąbrowski † Forças 170 000[1] Oficialmente200 000; na realidadeprovavelmente entre 25 000 e 50 000 combatentes[2] Baixas 877 mortos6 454 feridos e 183 desaparecidos[3] 6 667 mortos confirmados e enterrados[4] Estimativas não confirmadas variam entre 10 000[5] e 20 000[6] mortos Parte de uma série acerca do Socialismo libertário Conceitos[Expandir] Economia[Expandir] Pessoas[Expandir] Tendências[Expandir] Eventos significativos[Expandir] Tópicos relacionados[Expandir] Portal do anarquismo Portal do comunismo Portal da política vde A Comuna de Pariseclodida em 18 de março de 1871foi uma das mais importantes insurreições populares do século XIX. A capital francesa foi evacuada assim que as massas populares a tomaram. Esse evento foi resultado de diversos fatores específicos do período: a crise nacional do regime bonapartistaque começava a declinar; o abalo provindo da Guerra Franco-Prussiana; eprincipalmentea ascensão da ideologia e do desenvolvimento político de ideais socialistas entre o proletariado europeuexpressos pela expansão da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).[7] Barricade The Paris Commune May1871. Andre Devambez1911 O advento da Comuna foi considerado por diversos historiadores como o primeiro autogoverno de caráter proletário e popular dentro do contexto de ascensão do capitalismoo que corroborou ao desenvolvimento de uma consciência de classe dos trabalhadores na França (e na Europa ocidental) no século XIXalgo que ainda não havia ocorrido no século XVIII com a Revolução Francesaapesar de os ideais jacobinos desenvolvidos neste acontecimento terem sido adotados durante o período da Comuna.[8] Na descrição de Marx“a Comuna era composta de conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nos diversos distritos da cidade. Eram responsáveis e substituíveis a qualquer momento. A Comuna devia sernão um órgão parlamentarmas uma corporação de trabalhoexecutiva e legislativa ao mesmo tempo. Em vez de continuar sendo um instrumento do governo centrala polícia foi imediatamente despojada de suas atribuições políticas e convertida num instrumento da Comunaresponsável perante ela e demissível a qualquer momento. O mesmo foi feito em relação aos funcionários dos demais ramos da administração. A partir dos membros da Comunatodos que desempenhavam cargos públicos deviam receber salários de operários. […] Como é lógicoa Comuna de Paris havia de servir de modelo a todos os grandes centros industriais da França. Uma vez estabelecido em Paris e nos centros secundários o regime comunalo antigo governo centralizado teria que ceder lugar também nas províncias ao autogoverno dos produtores. No breve esboço de organização nacional que a Comuna não teve tempo de desenvolverdiz-se claramente que a Comuna devia ser a forma política inclusive das menores aldeias do país e que nos distritos rurais o exército permanente devia ser substituído por uma milícia popularcom um tempo de serviço extraordinariamente curto. As comunas rurais de cada distrito administrariam seus assuntos coletivos por meio de uma assembleia de delegados na capital do distrito correspondente a essas assembleiaspor sua vezenviariam deputados à delegação nacional em Paris […].”[9] A expansão do movimento socialista desde atuação Proudhon e publicação em 1840 de "O que é a propriedade"passando pela publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engelsque já se expressava a tendência crescente de uma avanço do socialismo na classe operária internacionalimpulsionada desde a década de 1830.[10] Segundo Engels“só os operários de Paris tinham a intenção bem definidaderrubando o governode derrubar o regime da burguesia”ainda que “nem o progresso econômico do país nem o desenvolvimento intelectual das massas operárias francesascontudotinham atingido ainda o grau que teria tornado possível uma reconstrução social”. Essa visão cada vez mais dissipada favoreceu questionamentos à República recém-instalada na França depois das derrotas na Guerra Franco-Prussianavisto que o Estado francês se encontrava em uma condição crítica e caóticana qual os trabalhadores e camponeses eram os mais prejudicadosainda que houvesse também uma insatisfação da burguesia francesa com um governo que era meramente representativo. Apesar de ter durado apenas dois meses [18 de março – 28 de maio de 1871]a Comuna de Paris foi uma manifestação de grande importância para a história das lutas proletárias e seu futuromesmo que seja considerada como uma insurreição inacabada por alguns historiadores. Derrubada pelo exército francês e alemãoa Comuna foi colocada pelo próprio Engels como um exemplo do que seria a ditadura do proletariadoimportante conceito da teoria marxista. Já para Mikhail Bakuninum dos fundadores do sindicalismo revolucionário e dirigente da ala federalista da AITque teve decisiva participação na Comuna de Lyon e de outros levantes populares na França entre 1870 e 1871: “O socialismo revolucionário acaba de tentar uma primeira manifestação brilhante e prática na Comuna de Paris. Sou um partidário da Comuna de Parisquepor ter sido esmagadasufocada em sangue pelos verdugos da reação monárquica e clericalnão por isso deixou de se fazer mais vivazmais poderosa na imaginação e no coração do proletariado da Europa; sou seu partidário em grande parte porque foi uma negação audazbem pronunciadado Estado. É um fato histórico imenso que essa negação do Estado tenha se manifestado justamente na Françaque foi até agora o país por excelência da centralização políticae que seja precisamente Parisa cabeça e o criador histórico dessa grande civilização francesaque tenha tomado essa iniciativa. Parisque abdica de sua coroa e proclama com entusiasmo sua própria decadência para dar a liberdade e a vida à Françaà Europaao mundo inteiro; Parisque afirma de novo sua potência histórica de iniciativa ao mostrar a todos os povos escravos (e quais são as massas populares que não são escravas?) o único caminho de emancipação e de salvação; Parisque dá um golpe mortal nas tradições políticas do radicalismo burguês e uma base real ao socialismo revolucionário; Parisque merece de novo as maldições de toda gente reacionária da França e da Europa; Parisque se envolve em suas ruínas para desmentir solenemente a reação triunfante; que salva com seu desastre a honra e o porvir da França e demonstra à humanidade consolada que se a vidaa inteligência e a força moral retiraram-se das classes superioresconservaram-se enérgicas e cheias de porvir no proletariado; Parisque inaugura a nova eraaquela da emancipação definitiva e completa das massas populares e de sua solidariedade de agora em diante completamente realatravés e apesar das fronteiras dos Estados; Parisque mata o patriotismo e funda sobre suas ruínas a religião da humanidade; Parisque se proclama humanitária e ateia e substitui as ficções divinas pelas grandes realidades da vida social e a fé na ciência; as mentiras e as iniquidades da moral religiosapolítica e jurídica pelos princípios da liberdadeda justiçada igualdade e da fraternidadeestes fundamentos eternos de toda moral humana; Paris heroicaracional e crenteque confirma sua fé enérgica nos destinos da humanidade por sua queda gloriosapor sua mortee que a transmite muito mais enérgica e viva às gerações vindouras; Parisinundada no sangue de seus filhos mais generososé a humanidade crucificada pela reação internacional coligada da Europasob a inspiração imediata de todas as igrejas cristãs e do grande sacerdote da iniquidadeo Papa; mas a próxima revolução internacional e solidária dos povos será a ressurreição de Paris”.[11] Os apoiadores da Comuna perceberam que não seria possível sustentar um autogoverno proletário sobre uma estrutura estatal burguesa. Com issoe a fim de atender as necessidades da classe proletáriaa Comuna foi obrigada a substituir essa estrutura por um outro tipo de organização política. Essa foi a maior contribuição da insurreição para o movimento revolucionário proletárioa ideia de que uma reestruturação completa era necessária.[12] Antecedentes A França passou por diversas turbulências em sua época modernasendo a Revolução Francesaque ocorreu em 1789a mais simbólica delas. Durante a Revolução Francesaentretantonão existia ainda uma consciência de classe específica dos trabalhadoresque só surgiu entre 1815 e 1848tanto na França quanto na Inglaterra.[13] As bases agrárias francesas eram muito fortes[14] epor ser um país de artesãoscamponeses e comerciantes - ou sejapequeno burgueses[15] -pode-se dizer que o capitalismo era pouco desenvolvido no Estado francêsse comparado com a Inglaterrao que explica o surgimento tardio das agremiações proletárias. O próprio conceito de socialismo só surgiu na década de 1820. Na década de 1830já era possível notar a formação de uma consciência de classe proletária - ainda que essa fosse muito menor quando comparada à consciência da burguesia[16] - einclusivealgumas revoltas representativas desse sentimentocomo a insurreição dos trabalhadores têxteis de Lyonem 1844. As chamadas Revoluções de 1848 já mostravam essa tomada de consciência das classes proletárias. Porémpara Engels: "[...] nem o progresso econômico do país nem o desenvolvimento intelectual das massas operárias francesastinham atingido ainda o grau que teria tornado possível uma reconstrução social".[17] Com a derrota dos trabalhadores em 1848a burguesia perdeu suas características progressistas e assumiu publicamente seu lado conservador e reacionárioprojetando-se como classe dominante e admitindo um papel antagonista em relação aos trabalhadores.[18] Nesse contextona década de 1860foi criada a Associação Internacional de Trabalhadoresou Primeira Internacionalque tinha por objetivo ser um ponto central de comunicação e cooperação entre os operários de diferentes países.[19] No campo políticoesta época viu ascender ao poder Napoleão III: primeiramentepor vias democráticas; posteriormentepor um golpeque instaurou seu Segundo Império. Sua posição como imperador foi muito questionada na década de 1870. Em dezembro de 1848após a Revolução de FevereiroLuís Napoleão foi eleito presidente da Segunda República em Paris elogo em seguidadeu um Golpe de Estado que incitou uma rebelião de parisienses (em sua maioria camponeses) que não aceitariam se submeter a outro império sem lutar. No entantoa rebelião foi detida pelos soldados do imperador. O sistema financeiro que Napoleão III instalou deixava os ricos cada vez mais ricosenquanto um grupo cada vez maior de pessoas enfrentava sérias dificuldades para sobreviver.[20] O crescimento urbano aceleradode 1 milhão de pessoas em 1851 para 2 milhões em 1870deixou muitas pessoas com subempregos ou desempregadasvivendo em cortiços extremamente cheios nos distritos centrais. Em 1870cerca de meio milhão de parisienses eram considerados indigentes. Esse cenário de "crise urbana" enfurecia as elites que não se sentiam confortáveis em viver em uma cidade insalubreescura e sujacercada de uma classe considerada imunda e perigosa. Para resolver os problemas do crescimento populacionalentãoNapoleão III convocou Georges Haussmannprefeito do départament do Senapara reformar a capital e transformá-la numa cidade imperial. Além de trazer mais luz e ar para a cidade (frequentemente atingida por surtos de cólera) e melhorar o saneamento básicotambém havia o objetivo de liberar o fluxo de capital e mercadoriasbem como de limitar as possibilidades de insurgências. Os bulevares se tornariam obstáculos para as barricadas tão frequentemente usadas em revoltas populares. Além dissotambém serviam para exibir o poder do Império e modernização da cidade -- uma exposição permanente.[21] Para colocar esses projetos em ação100 mil apartamentos foram destruídos e as pessoas que ali moravam foram para a periferia. Outros foram porque o custo de vida em Paris havia aumentado. Esses subúrbios foram anexados em 1860 a Paris com intuito de aumentar a arrecadação de impostos e manter o controle social. [22] Mais tarde as contas do projeto de reforma de Napoleão III viriam a explodir em uma crise econômica que colaborou ainda mais com a insatisfação social. As dificuldades dos trabalhadores também aqueciam a oposição ao regime imperial. Os salários não acompanhavam os preços e a desigualdade aumentavaalém dos abusos dos empregadores. No fim dos anos 1860foram criadas associações para lidarem com as injustiças que os trabalhadores sofriamseus objetivos eram políticoseconômicos e até revolucionários. Em 1869 já existiam cerca de 165 dessas associaçõescom cerca de 160 mil membros. Mulheres militantes que lutavam por seus direitos e melhores condições de trabalho também organizaram uma Sociedade para a Afirmação dos Direitos das Mulheres. Cada vez mais grupos de militantes republicanos e socialistas se reuniam para discutir sobre o que poderiam fazer para construir um governo comprometido com a justiça social. Paris era a única cidade da França que não tinha o direito de eleger seu prefeito ou os conselhos municipais eem meados de 1869-70as reivindicações de autonomia dos parisienses se fundiram ao republicanismo. Daíganha a força a ideia de haverum diauma "Comuna".[23] Guerra Franco-Prussiana Os acontecimentos políticos ligados à Guerra Franco-Prussiana revelam o caráter burguês do Estado francêsque foi o que levou ao processo revolucionário.[24] Dessa formaa Guerra Franco-Prussiana pode ser compreendida como um antecedente chave para entender a Comuna de Paris. A guerra eclodiu em 1870 e a França de Napoleão III foi duramente derrotada. O imperador foi preso e um governo provisório - a III República - foi estabelecido em 14 de setembro de 1870. No entantoeste governo se mostrou ineficazpois as insatisfações políticas que já existiam no governo de Napoleão III continuavam a se propagar e eram agora protagonizadas pelos trabalhadores. As massas estavam insatisfeitas com as condições da derrota e o governo falhou nas tentativas de acordo com os prussianos. Enquanto issotropas prussianas cercavam os portões de Paris.[25] Coluna de Vendômederrubada após a Guerra Franco-Prussiana. Franck. Chute de la colonne Vendôme1871 Quando as tropas prussianas começaram a ocupar a França em direção a Paris em 2 de setembro de 1870foi iniciado o processo histórico que culminou na Comuna de Paris. O governo francês estava fragmentado e o povo se encontrava à mercê do exército de ocupação. A população exigiu a criação de uma Guarda Nacional formada pelas classes populares[26] para que pudesse agir. Os trabalhadoresse armaram para a defesa das cidades e se recusaram a obedecer à rendição humilhante[27] feita em Versalhesatravés da qual a França cederia os territórios da Alsácia e Lorena à Prússia. As tropas prussianas ocuparam os fortes do leste de Parisse convocaram eleições para uma nova Assembleia e o governo de defesa nacional foi convidado a renunciar. Os trabalhadores parisiensesnão aceitavam largar as armas.[28] A revolta da população diante das tropas prussianas se transformou em uma revolta social. Foi nesse contexto de organização independente dos trabalhadores para a defesa de Paris que surgiram as lideranças proletárias[29] que conduziram o país à Comuna. O Governo da Comuna de Paris Em 18 março de 1871na capital francesaaconteceu o evento da Comuna de Paris: a primeira tentativa da história de um governo regido pelo proletariadoque eclodiu em forma de insurreição social contra a burguesia parisienseo governo francês e os ataques inimigos dos exércitos alemães que lutavam na Guerra Franco-Prussiana [1870-1871]. A Comuna de Parisporémsó seria oficialmente proclamada no dia 28 de marçoapós eleições - realmente universais - realizadas dois dias antes pelo povoque resultaram na ruptura do governo parisiense com o governo de Versalhes.[30] Horace Vernet- Barricade Rue Soufflot. Pintura da Batalha nas barricadas na Rua Soufflot no dia 24 de junho de 1848 As tropas da Guarda Nacional (compostas por neojacobinosblanquistas e internacionalistas) impediram que o exército francêsa mando de Adolf Thiers e comandadas pelos generais republicanos Thomas e Lecomteconfiscassem os canhões de Paris na noite do evento da Comuna. A ocupação de Paris pela Guarda Nacionalcuja vanguarda era formada por homens que já carregavam uma ideologia popularaconteceu e a cidade foi evacuada: governantesnobres e funcionários civis fugiram. LogoParis pertencia ao povo revolucionário. O exército da Guarda Nacional ainda reprimiria novamente partidários de direita em contato com Thiersque se manifestariam contra o Comitê Nacional em 21 de março.[31] A partir de entãoa França passou a ter duas capitais vigentes: Paris e Versalhescada uma com sua ideia de nação e de regime político apropriado para ser aplicadodois centros políticos que competiam entre si. Em seu período de governo na cidade de Parisa Comuna tomou variadas medidas em prol do povo parisiense: a primeira foi destituir a centralização do poder estatalabolindo depois o poderio da Igreja (posteriormente separada da escola e do plano educacional também)da polícia e do exército. Além dissoa burocracia estatal foi substituída pela autogestão social coletiva[32] e uma previdência social foi instituída. A administração da Comuna de Paris introduziu ainda muito mais reformas: Paris Commune conscription poster29 de março de 1871. Autor desconhecido O trabalho noturno foi extinto; Oficinas que estavam fechadas foram reabertas para que cooperativas fossem instaladas; Residências vazias foram desapropriadas e reocupadas; Em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias; Todos os descontos nos salários foram abolidos; A jornada de trabalho foi reduzidae chegou-se a propor a jornada de oito horas; Os sindicatos foram legalizados; Instituiu-se a igualdade entre os sexos; Projetou-se a gestão operária das fábricas (semno entantoimplantá-la); O monopólio da lei pelos advogadoso juramento judicial e os honorários foram abolidos; Testamentosadoções e a contratação de advogados se tornaram gratuitos; O casamento se tornou gratuito e simplificado; A pena de morte foi abolida; O cargo de juiz se tornou eletivo; O calendário revolucionário foi novamente adotado; O Estado e a Igreja foram separados; a Igreja deixou de ser subvencionada pelo Estado e os espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Estado; A educação se tornou gratuitasecular e compulsória. Escolas noturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto; Imagens santas foram derretidas e sociedades de discussão foram criadas nas igrejas; A Igreja de Breaerguida em memória de um dos homens envolvidos na repressão da Revolução de 1848 foi demolida. O confessionário de Luís XVI e a coluna Vendôme também; A bandeira vermelha foi adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade.[33] Entretantopor mais revolucionária que tenha sido toda a insurreição que resultou no regime da Comuna de Parisdesde o começo ela estava fadada ao fracasso. Isso se deu graças aos erros em questões estratégicas para a proteção militar da cidade parisiense contra as tropas de Adolf Thiersposteriormentejunto às tropas prussianasderrubariam o governo proletário que havia se instituído na capital francesa. Participação das mulheres Louise Michel1880. Autor desconhecido. Antes mesmo da Comunaas mulherestanto burguesas quanto operáriasjá haviam se levantado politicamente nas lutas revolucionárias de 1789. Porémao contrário da Revolução Francesa[34] na Comuna de Paris as mulheres podiam empunhar armas e lutar nas linhas de frente.[35] A proletarização das mulheres ocorreuatravés das indústrias têxteisonde elas passaram a se organizarparticipando de sindicatos e clubes políticos.[36] Na Comunaorganizadasas mulheres encontraram maior voz para lutar pela igualdadeinclusive pela igualdade de gênero.[34] Moloch. La barricade de la place Blanche défendue par des femmes lors de la Semaine sanglante Durante a Comuna as mulheres combateram - muitas vezes nas linhas de frente - as tropas prussianas e francesasconfeccionaram uniformescuidaram de feridosprestaram assistências logísticas e fabricaram sacos que foram usados nas barricadas feitas pelo povo parisiense.[36] Uma importante mulher presente na Comuna de Paris foi Louise Micheluma professora humanista que se negou a declarar lealdade ao império de Napoleão IIIe se engajou na luta pela República. Durante a Comuna ela foi tanto combatente quanto enfermeiraalém de se unir ao movimento anarquista e se dispor para ir até Versalhes assassinar o presidente Thiers.[37] Ela foi presa e deportada em decorrência de suas ações. Como resultado da ativa participação das mulheres na Comuna de Parisem seu governo foi anunciada a igualdade de direitos entre os gênerosapesar de ainda não ter sido instituído o sufrágio universal.[36] O fim da Comuna O fim da Comuna decorreu de um erro crucial ocorrido logo no primeiro dia do acontecimentoem que o governo de Thiers evacuou a cidade de Paris. Esse foi o momento em que o Comitê Central deveria ter movimentado a Guarda Nacional sobre Versalhestendo em vista que as tropas do exército estavam indefesas e o movimento tinha forte apoio da populaçãonesse momento amplamente mobilizada.[38] Outro motivo que auxiliou a derrocada da Comuna foi o abandono de Paris pelo exército regular. Isso tudo se deveu ao fato de que a Comuna acreditava ser possível chegar em um acordo com Thiers.[39] Com o passar do tempo e o descuido em não ter atacado Versalhesdiversas tropas passaram a chegar a Paris vindas do interior da França e Thiers recebeu a autorização da Alemanha para concentrar ainda mais tropas no local.[40] Bismarckcom medo de uma possível vitória da Comunalibertou por ordem de Thiers cerca de 60 mil soldados franceses presos pela Prússia e aumentou suas próprias tropas para 130 mil soldados. Com issoa cidade de Paris foi cercadae os communards tiveram de fugirqueimandoem protestotudo aquilo que deixavam para trás.[41] Para Parisa tática de guerra era realizar um combate de certa forma limpoque respeitasse os princípios de Genebraenquanto para Thiers se tratava de uma guerra “suja”na qual não haveria misericórdia. Portantoera comum que os exércitos inimigos da Comuna realizassem fuzilamentosatirassem contra ambulâncias e promovessem outras ações violentas deste gênero. Estes exércitos enxergavam aos civis como um objeto de guerraalgo que ia contra os princípios de Genebra.[42] A Comuna tinha um alto poder bélicoporém não tinha plano e nem comando definido. Com issoThiers respondeu rispidamentebombardeandosimulando conciliações e promovendo outras diversas maneiras de sua guerra “suja”usando de corrupção e até mesmo de um falso patriotismo.[43] Cisões começaram a surgir dentro da própria Comunatendo em vista que enquanto os jacobinos e os blanquistas queriam concentrar os poderes político-militares no Comitê de Salvaçãoos proudhonianos e marxistasque eram muito poucos no momentoacreditavam estar sob domínio de uma nova ditadura. Esses desentendimentos internos eram externados através de manifestos em jornais.[44] Diversas perdas se efetivaram ao fim da insurreiçãoatravéspor exemplode renúncias de indivíduos de altos cargos de comando e da falta de clareza na liderança do movimento.[45] Paris foi ficando desastrosacom inúmeros sinais de destruição e uma quantidade enorme de vítimas da guerra. Os combates eram completamente desproporcionais entre as forças oponentesde modo que um exército extremamente forte e bem armado lutava contra alguns poucos soldados sem comandodesatentos e sem esperança.[46] Consequênciaslegado e memória Os batalhões da Comuna haviam sido dizimadosse perderam diversos soldados - seja pela morte em guerrapor fuzilamento ou por terem sido levados prisioneiros.[47] Diversas lojas foram saqueadas: os soldados destruíam as prateleirasas mobíliaslevavam diversas mercadorias e objetos de valorcomo joias e bebidas e até itens de perfumaria.[48] A força do exército francêsligada à falta de organização da Comuna de Parisresultou no fim desta. A “Semana Sangrenta”como ficou conhecido o período entre 22 e 28 de Maioentrou para a história dessa batalhacom mais de 20 mil parisienses mortos. Ao fim da Comuna17 mil parisienses foram executadosmais de 40 mil foram feitos prisioneiros e mais de 13 mil condenações se efetivaram.[41] Exécution en masse des communards capturés dans les cours de la caserne Lobau près de l'Hôtel de Ville - Gravure de Frédéric Lix pour L'Illustration du 10 juin 1871 - Bibliothèque historique de la Ville de Paris Enquanto a Comuna ainda resistiasó pessoas denunciadas ou os federados haviam sido mortos. Após o fim da Comunaos soldados franceses não viam diferença e passavam a matar civis com frequênciarevistando casas e cadáveres e levando tudo o que tinhamação que ficou conhecida como “O último confisco”.[49] Portantoqualquer pessoa desconhecida poderia ser fuziladade modo que as pessoas passaram a ficar mais desconfiadas e a angústia e o desespero aumentaram conforme mais histórias de fuzilamento iam se dissipando por Paris.[50] Como não havia polícia e muito menos informações precisaso exército assassinava qualquer pessoa que se referisse a outra com algum nome revolucionário e os soldados já fuzilavam os denunciados na ânsia de receber o prêmio pela sua cabeça. Diversas pessoas eram fuziladas baseadas apenas no fato de que se parecessem o mínimo com algum membro ou funcionário da Comuna.[51] Paris quase ficou sem sapateirosalfaiatesferreirospedreiros e marceneiroshomens esses que tinham vestido o uniforme da Guarda Nacional em prol da Comuna.[52] Cresceutambéma onda de violência sobre a Europa. Republicanos e monarquistasconservadores e liberais se uniram em uma aliança a fim de combater o proletariado revolucionário e principalmente combater a Internacional.[53] Foi instaurada uma questão crucial: se a Comuna teria sido a primeira ou a última revolução proletáriajá que pensadores como Franz Mehring a entendiam como o final de um cicloenquanto Engels e Marx falavam sobre como as consequências da derrota da Comuna resultaram na transferência do movimento operário para a Alemanhaproporcionandoportantocontinuidade.[54] A Comuna demonstrou que é possível realizar uma transição de um regime capitalista para um regime operário efetivo[55] e a Paris dessa época é lembrada como a precursora de uma nova sociedade.[56] Ela foi o berço de correntes ideológicas que ficaram fortes no anarquismo europeu nos anos seguintescomo o anarco-sindicalismoantes da onda de violência que se desenvolveu no cenário político europeu.[57] Os ideais da Comuna repercutiram até em lugares distantescomo PortugalArgentinaBrasil e México.[58] No começo do século XXos trabalhadorescamponeses e soldados da Rússia que constituíram os sovietes passaram a agir e a Revolução Russa ficou compreendida como uma modernização da Comuna de Paristendo em vista que utilizou da mesma como um instrumento teóricoporém adaptado a um outro contexto.[59] A Comuna de Parisfalhando ou nãoapareceu novamente em diversos momentos dos séculos XX e XXIquando foi mencionada na Revolução Cultural da China e até mesmo durante o governo de Salvador Allende no Chilequando continua a ser adotada a ideia de ascensão ao poder pela via revolucionária.[60] A Comuna serviu de base e até de prova para a construção dos pensamentos anarquistas e marxistasjá que Marx e Bakunin a analisaram e conseguiram dela tirar diversas conclusões acerca da importância do Estado para uma sociedade.[54] Referências «Les aspects militaires de la Commune par le colonel Rol-Tanguy». 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